segunda-feira, 4 de julho de 2011

Reflexões Sobre O Politicamente Correto

Povo do meu blog! Quem me conhece sabe o quanto execro o fenômeno do politicamente correto. Nesta semana achei um texto engraçadíssimo, da lavra do Mestre em História Social Luiz Antônio Simas, constante no exemplar do jornal Prana, do mês de julho/2011, na página 3. Leiam, é de rolar de rir. Vou complementar com alguns apontamentos e uma contribuição inclusive de minha politicamente incorreta (mas não menos augusta) esposa, para finalizar (claro!) com meu parecer seichonoieiano sobre o assunto. Leiam, vale a pena!

Politicamente Correto X Humor

Por Luiz Alberto Simas (Mestre em História Social pela Universidade Federal do Rio de Janeiro e professor de História do ensino médio)

"Chegamos ao limite da insanidade da onda do politicamente correto. Soube dia desses que as crianças, nas creches e escolas, não cantam mais 'O cravo brigou com a rosa'. A explicação da professora do filho de um camarada foi comovente: a briga entre o cravo - o homem - e a rosa - a mulher - estimula a violência entre os casais. Na nova letra 'o cravo encontrou a rosa / debaixo de uma sacada / o cravo ficou feliz / e a rosa ficou encantada'.
Que diabos é isso? O próximo passo é enquadrar o cravo na Lei Maria da Penha. Será que esses doidos sabem que 'O cravo brigou com a rosa' faz parte de uma suíte de 16 peças que Villa Lobos criou a partir de temas recolhidos no folclore brasileiro? É Villa Lobos!
Outra música infantil que mudou de letra foi Samba Lelê. Na versão da minha infância o negócio era o seguinte: Samba Lelê tá doente / Tá com a cabeça quebrada / Samba Lelê precisava / É de umas boas palmadas. A palmada na bunda está proibida. Incitaa violência contra a menina Lelê.
A tia do maternal agora ensina assim: 'Samba Lelê tá doente / Com uma febre malvada / Assim que a febre passar / A Lelê vai estudar'. Se eu fosse a Lelê, com uma versão dessas, torcia pela febre não passar nunca. Os amigos sabem de quem é Samba Lelê? Villa Lobos de novo. Podiam até registrar a parceria. Ficaria assim: Samba Lelê, melodia de Heitor Villa Lobos e letra da Tia Nilda do Jardim Escola Criança Feliz.
Comunico também que não se pode mais atirar o pau no gato, já que a música desperta nas crianças o desejo de maltratar os bichanos. A Sociedade Protetora dos Animais cairia em cima com processos.
Quem entra na roda dança, nos dias atuais. Não pode mais ter sete namorados para se casar com um. Sete namorados é coisa de menina fácil, estimula o sexo sem amor, a vulgaridade.
Ninguém mais canta: 'Pai Francisco entrou na roda, tocando seu violão, vem de lá seu Delegado, e pai Francisco foi pra prisão'. O pobre do Pai Francisco foi preso apenas por vadiagem, mas atualmente ficaria sob a suspeita de ser traficante.
Ninguém mais é pobre ou rico de-marré-de-si, para não lembrar à garotada a desigualdade de renda entre os homens. Dia desses alguém (não me lembro exatamente quem se saiu com essa e não procurei a referência no meu babalorixá virtual, Pai Google de Aruanda), foi espinafrado porque disse que ecologia era, nos anos setenta, coisa de viado.
Qual é o problema da frase? Ecologia, de fato, era vista como coisa de viado. Eu imagino se meu avô, com a alma de cangaceiro que possuía, soubesse que algum filho estava militando na causa da preservação do mico-leão-dourado, em defesa das bromélias ou coisa que o valha. Bicha louca, diria o velho.
Vivemos tempos de não me toques que eu magoo. Quer dizer que ninguém mais pode usar a expressão coisa de viado? Que me desculpem os paladinos da cartilha da correção, mas isso é uma tremenda babaquice. O politicamente correto é a sepultura do humor, da criatividade, da divertida sacanagem. A expressão coisa de viado não é, nem a pau (sem duplo sentido), ofensa a bicha alguma.
Daqui a pouco só chamaremos o anão - o popular pintor de rodapé ou leão-de-chácara de baile infantil - de deficiente vertical. O crioulo - vulgo picolé de asfalto ou bola sete (depende do peso) - só pode ser chamado de afrodescendente. O branquelo - o famoso branco azedo ou Omo total - é um cidadão caucasiano desprovido de pigmentação. A mulher feia - aquela que nasceu do avesso, a soldado do quinto batalhão de artilharia pesada, também conhecida como o rascunho do mapa do inferno - é apenas a dona de um padrão divergente dos preceitos estéticos da contemporaneidade. O gordo - outrora conhecido como rolha de poço, chupeta do vesúvio, 'Orca, a baleia assassina', e bujão - é o cidadão que está fora do peso ideal. O magricela não pode ser chamado de morto-de-fome, pau-de-virar-tripa e Olívia Palito. O careca não é mais o aeroporto de mosquito, tobogã de piolho e pouca telha.
Nas aulas sobre o barroco mineiro, não poderei mais citar o Aleijadinho. Direi o seguinte: o escultou Antônio Francisco Lisboa tinha necessidades especiais... Não dá. O politicamente correto também gera a morte do apelido, essa tradição fabulosa do Brasil.
O recente Estatuto do Torcedor quer, com os olhos gordos na Copa de 2014, disciplinar as manifestações das torcidas de futebol. Ao invés de mandar os juiz pra ponte que partiu e o centroaventa pereba tomar naquele lugar, cantaremos nas arquibancadas o allegro da Nona Sinfonia de Beethoven, entremeado pelo coro de "Jesus, Alegria dos Homens", do velho Bach.
Falei em velho Bach e me lembrei de outra. A velhice não existe mais. O sujeito cheio de pelancas, doente, acabado, o famoso pé-na-cova, aquele que dobrou o Cabo da Boa Esperança, o cliente do seguro-funeral, o popular tá-mais-pra-lá-do-que-pra-cá, já tem motivos para sorrir na beira da sepultura. A velhice agora é simplesmente a 'melhor idade'.
Se Deus quiser morreremos, todos, gozando da mais perfeita saúde. Defuntos? Não. Seremos os inquilinos do condomínio Cidade do Pé-Junto".

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